
Faleceu neste sábado, 6, em sua residência o sete-lagoano mais velho Antônio Valace de Oliveira Silva, mais conhecido como Valace, aos 101 anos de idade, completados em 4 de setembro deste ano. Era pai do vereador Caio Valace.
Natural de Matozinhos, ele chegou em Sete Lagoas aos nove anos de idade, tendo participação efetiva no desenvolvimento de Sete Lagoas em vários segmentos, se destacando na política.
Valace foi presidente da Cooperativa dos Produtores de Leite de Sete Lagoas (1968-1972), diretor da Frimisa, no governo Tancredo Neves, ajudou a fundar o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro -, que culminou com a eleição de João Herculano para prefeito, ele também integrou a Força Expedicionária Brasileira
Também foi sócio e fundador do Iporanga Social Clube, do Clube Náutico de Sete Lagoas, da Telefônica de Sete Lagoas (Telesete). Venerável na Loja Maçônica Liberdade e União, 140, conselheiro da Cohab no governo estadual de Eduardo Azeredo e presidente da Seltur, no mandato de Ronaldo Canabrava, recebeu ainda condecoração com a Medalha da Inconfidência Mineira.
Era casado com Maria das Graças Diniz, pai de Heloisa, Sérvio, Eveline, Caio Valace, Jaqueline, Demetrius e Lucas. Netos: Júlia,André, Fernanda, Nuno, Pedro, Estevão, Samuel,Túlio, Nathalia, Gustavo, Luan, Luíza e Ierê. Bisnetos: Violeta, Vicente e Zara.
O velório será no ginásio do Unifem de 12 às 16h30 com sepultamento no cemitério Santa Luzia às 17h.
Uma reportagem especial foi publicada no jornal Sete Dias na coluna Nossa Gente, assinada pela filha Heloisa Aline nos 100 anos do pai Antônio Valace de Oliveira Silva, que contou toda sua história.
Confira a reportagem:
Posso dizer que, se há uma palavra que define a personalidade de meu pai, ela é realização. Dono de uma energia indomável, ele é um homem sempre em movimento, uma inteligência nata. O menino que mal cursou a quarta série de grupo escolar, que desde cedo ajudava o pai, boiadeiro, “tocando” gado, é movido pelo fazer, pelo construir, pelo trabalho. E onde quer que tenha passado, seja como diretor comercial e, depois, como presidente da Cooperativa dos Produtores de Leite de Sete Lagoas (1968-1972), seja como diretor da Frimisa, no governo Tancredo Neves, levou consigo a paixão por inovar, imprimir sua marca no tempo. Na cooperativa, que tinha enorme importância na época, criou a Festa do Leite com o objetivo de valorizar e divulgar a bacia leiteira de Sete Lagoas, e lançou a linha Sete de produtos derivados do leite, com uma criativa campanha publicitária. Na Frimisa, lutou para sanear e colocar em pé uma empresa vital para a pecuária mineira, que precisava de um braço forte para se reeguer.
Chegou aqui por volta dos nove anos e, desde então, adotou Sete Lagoas como sua casa. Não se furtou em participar dos movimentos que gerassem melhoria e engrandecimento da cidade. Nesse intuito, foi membro fundador da Fundação Monsenhor Messias/Unifemm, e hoje é o atual presidente de honra do Conselho. Junto à minha mãe, sua primeira mulher, a educadora Isis da Silva Oliveira, com quem se casou em 1954, entrou na campanha pró educandários gratuitos, que resultou na construção do antigo colégio Márcio Paulino.
Outra paixão que alimentou a vida de Valace foi a política. Uma vocação visceral em um tempo que ela era representada por um grupo de homens honrados, que se engajavam voluntariamente nas causas em que acreditavam. Ajudou a fundar o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro -, que culminou com a eleição de João Herculano para prefeito. Polêmico e intransigente em alguns momentos, fez muitos amigos e alguns desafetos circunstanciais ao defender suas bandeiras nesse campo. Com Renato Azeredo – que o chamava de “xerife – , Wilson Tanure e Afrânio Avelar, tríade com quem compartilhou muitas batalhas, passou pelo PSD – Partido Social Democrata, pelo MDB – Movimento Democrático Brasileiro e, posteriormente, PMDB, do qual foi presidente por 10 anos (1972 a 1982). Foram muitas as campanhas vitoriosas de companheiros como Sérgio Emílio, Afrânio Avelar, Renato Azeredo, Wilson Tanure, Itamar Franco, entre outras. Profundo conhecedor da cidade, estrategista, sempre teve um tino especial para detectar a percentagem de votos que os candidatos do partido teriam em cada bairro. Eu ficava surpresa em perceber como ele era certeiro.
Nas poucas vezes que o vi chorar, uma delas foi pela morte de Wilson Tanure, por quem nutria enorme carinho. Depois, pela perda do filho, meu irmão, o psicólogo Marcus Vinícius, assassinado na Bahia, um dor latente no seu coração. Na lista dos amigos fiéis, Renato Azeredo ocupa um lugar especial e, entre outras demonstrações de amizade, o indicou para a Frimisa, em 1983, um ano após uma campanha a prefeito (1982), na qual perdeu para Marcelo Cecé, mas cujos votos contribuíram para elegê-lo.
Meu pai sempre teve como valor da alma a gratidão. As conversas familiares sempre esbarram nesse sentimento, particularmente pelas pessoas que o ajudaram no início dos negócios. Tempo de muito trabalho, de levantar de madrugada para a lida nas fazendas, driblando empecilhos e dificuldades, guiado pela força da juventude, pelo entusiasmo para progredir, pela perspectiva da família que crescia. As lembranças desses amigos leais são sagradas em sua memória. Alguns deles, por ser a mais velha de oito filhos, tive a oportunidade de conhecer. José Costa, que lhe vendeu o seu primeiro açougue para a sociedade com meu tio Paulo, numa transação de “pai para filho”; Pirunga, com quem jogou do futebol, peça vital na compra do primeiro sítio, após ver negado um empréstimo no Banco Agrícola; Janjão das Areias, que lhe garantiu preferência para a aquisição dessa propriedade; José Lopes, fazendeiro em Curvelo, que lhe vendia gado para pagar em condições especialíssimas, assim como João do Candu, outro parceiro comercial generoso; Lustosa, gerente do Banco Mercantil, que segurava os cheques, quando a situação apertava.
A história do meu pai mistura-se com a história da cidade. Ele foi sócio e fundador do Iporanga Social Clube, do Clube Náutico de Sete Lagoas, da Telefônica de Sete Lagoas (Telesete). Venerável na Loja Maçônica Liberdade e União, 140, conselheiro da Cohab no governo estadual de Eduardo Azeredo e presidente da Seltur, no mandato de Ronaldo Canabrava, recebeu ainda condecoração com a Medalha da Inconfidência Mineira.
“Uma vida bonita”: é como ele define a sua trajetória centenária. Um dos últimos exemplares de homens honrados, de um tempo em que o fio do bigode valia mais que uma assinatura de contrato. Pai de oito filhos, avô de 13 netos e uma bisneta, casado há 36 anos com Maria das Graças Diniz, Valace é uma lenda viva. Honra e honestidade é o legado que fica dessa existência rica, exemplo para todos nós que o amamos e admiramos.
Por Heloisa Aline (filha) (Jornal Sete Dias)