Ministro da Justiça Sérgio Moro conhece Apac de Santa Luzia

“Queremos investir na ressocialização dos presos, para que a pessoa que cometeu um crime responda por ele, mas retorne melhor à sociedade. A Apac se revela uma experiência extremamente exitosa nesse sentido. Meu total apoio ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais pela disseminação de boas práticas como essas, que são uma mostra de que nenhuma prisão é forte o suficiente para aprisionar nossa esperança. E se há uma palavra que define essa visita aqui, hoje, é esperança.”

A declaração é do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e foi dada na manhã desta sexta-feira, 29 de março, durante a visita dele à Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

Acompanhado da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), do presidente  Nelson Missias de Morais e do presidente do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Fabiano Bordignon, o ministro Sérgio Moro foi conhecer de perto a metodologia apaquiana.

“Este é um momento histórico para nós, sobretudo porque o ministro Sérgio Moro tem realizado um trabalho muito importante para o País. O método da Apac é o que tem recuperado aqueles que cometeram algum deslize na vida. É importante recuperar o homem, e o ministro viu aqui algo absolutamente diferenciado do modelo convencional. Trata-se de uma metodologia que pode ser levada para todo o País”, ressaltou o presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), desembargador Nelson Missias de Morais.

As Apacs são uma alternativa ao sistema prisional comum. No cerne da atuação delas está a humanizacão do cumprimento das penas privativas de liberdade, em uma aposta na recuperação do ser humano que cometeu um crime. Doze elementos sustentam o método, entre eles a participação da comunidade, o trabalho, a assistência jurídica, a valorização humana, a família e o voluntariado.

Comprometimento

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Durante a visita, os recuperandos abençoaram os visitantes; a Apac tem 160 internos cumprindo pena e se profissionalizando

Durante a visita, o ministro Sérgio Moro percorreu as instalações da Apac de Santa Luzia, que possui no momento cerca de 160 recuperandos cumprindo pena em três regimes distintos. Conheceu os espaços de laborterapia, as oficinas de trabalho e de estudo, a biblioteca, as celas e conversou com recuperandos. Deles, ouviu frases como “a Apac foi um divisor de águas em minha vida” e “daqui não tive vontade de fugir.”

“Vamos estudar melhor essa experiência e a forma como poderemos contribuir para que ela seja multiplicada em Minas e no País. Não se trata de uma questão apenas de dinheiro, embora recursos sejam realmente importantes. Depende também de uma compreensão das comunidades envolvidas de que as pessoas presas e condenadas ainda fazem parte da sociedade”, ressaltou o ministro.

Sérgio Moro lembrou que a metodologia apaquiana é muito baseada na comunidade, no trabalho de voluntários, na disciplina e na organização dos próprios presos, e que a comunidade precisa se engajar na recuperação dos que cumprem pena ali. “Nunca podemos perder a esperança de que as pessoas vão se ressocializar, mas elas precisam ter oportunidades para isso”, acrescentou o ministro. 

A ministra Cármen Lúcia, a quem o ministro agradeceu pelo convite para conhecer uma Apac, é uma entusiasta da metodologia. Ao dirigir algumas palavras aos recuperandos, já nos momentos finais da visita, a ministra disse que eles eram a razão de aquelas autoridades estarem ali, naquele momento. “Estamos juntos na mesma prática humana de tentar nos tornar melhores. Viemos aqui para poder melhorar as condições para outros que também cometeram erros”, afirmou.

Método revolucionário

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Na visita à Apac, dirigentes do programa Novos Rumos e membros do TJMG recebem o ministro Sérgio Moro e explicam o modelo Apac

O juiz Luiz Carlos Rezende e Santos, auxiliar da Presidência nos assuntos penitenciários e de execução penal e coordenador executivo do programa Novos Rumos, afirmou que a presença do ministro da Justiça em uma Apac lhe trouxe esperança, porque ressalta a necessidade de mudanças no sistema prisional brasileiro.

O magistrado destacou a longa história do Tribunal de Justiça mineiro com as Apacs. “Hoje me lembro, em especial, do desembargador Joaquim Alves de Andrade, que foi a verdadeira mola propulsora com relação a semear as Apacs em todo o território de Minas, por meio do Poder Judiciário”, acrescentou.

Para Valdeci Antônio Ferreira, diretor executivo da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), entidade que administra e fiscaliza as Apacs, a visita do ministro, “pela importância do cargo que ocupa e pela figura pública que representa no contexto da sociedade brasileira, marca a história do movimento das Apacs no Brasil”.

Na avaliação de Valdeci Ferreira, a visita sinaliza que a FBAC está no caminho correto. “Oferecemos aos estados da federação uma terapêutica penal própria denominada método Apac, que nada mais é do que o cumprimento fiel da Lei de Execução Penal no tocante aos direitos e aos deveres do preso.”

“A FBAC se sente feliz e profundamente honrada em receber essa visita, consciente de que, juntamente com seus parceiros, em especial o TJMG e o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), disponibiliza um método inusitado e revolucionário de humanização da pena, sempre objetivando a recuperação do preso e a proteção da sociedade”, ressaltou Valdeci Ferreira.

Também acompanharam a visita do ministro da Justiça à Apac de Santa Luzia a desembargadora Márcia Milanez, coordenadora do programa Novos Rumos do Tribunal mineiro; o procurador-geral de justiça de Minas Gerais, Antônio Sérgio Tonet; o procurador-geral do município, Tomás de Aquino Resende; e o presidente da Apac de Santa Luzia, Wallesson Gomes da Silva, entre outras autoridades.

Visita ao TJMG

Após a visita à Apac de Santa Luzia, os ministros Sérgio Moro e Cármen Lúcia se reuniram com membros do Judiciário mineiro na sede do TJMG, na capital. Na oportunidade, o presidente Nelson Missias contou ao ministro sobre as respostas rápidas e efetivas que vêm sendo adotadas pelo Poder Judiciário mineiro frente às demandas originadas pelo desabamento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, ocorrida em 25 de janeiro último.

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Em reunião com Sérgio Moro e Cármen Lúcia na sede do TJMG, o presidente Nelson Missias destaca programas do Judiciário

“Minas está passando por uma grave crise financeira, o que tem exigido de nós uma atuação com muita criatividade e modernização”, disse o presidente. Ele informou ao ministro que o Processo Judicial eletrônico (PJe) estará instalado em 100% das comarcas mineiras, ainda neste ano, e que em sua gestão estão sendo construídos 34 novos fóruns. Falou ainda sobre outra importante iniciativa do Novos Rumos do TJMG: o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário Portador de Sofrimento Mental (PAI-PJ).

“O TJMG é um tribunal que honra muito o direito brasileiro e sempre se destacou pela força e pela eficiência, e o presidente Nelson Missias está empenhado em atuar para dar sequência a boas práticas e implementar outras que visem à melhoria da Justiça mineira”, observou a ministra Cármen Lúcia.

O ministro Sérgio Moro reiterou seu apoio ao Judiciário mineiro e afirmou que o Ministério da Justiça pode atuar como uma “caixa de ressonância” de iniciativas de destaque dos diversos tribunais. Em sua fala aos magistrados, ele destacou a importância da conciliação, reconhecendo que a Justiça é um método caro de resolução de conflitos, e do investimento em soluções tecnológicas para melhorar a prestação jurisdicional. “Precisamos trabalhar juntos com o objetivo de atendermos melhor ao cidadão”, afirmou.

Participaram do encontro no TJMG o 1º vice-presidente, desembargador Afrânio Vilela, a 3ª vice-presidente, Mariangela Meyer, o vice-corregedor-geral de justiça, Jayme Silvestre Corrêa Camargo, além de desembargadores que ocupam cargos como superintendentes do Tribunal mineiro e juízes auxiliares da Presidência, entre outras autoridades.

Visitas históricas

A atual gestão do TJMG tem se empenhado em ampliar a disseminação do método Apac, em todo o País.  Em outra visita histórica, em 16 de março último, o presidente Nelson Missias ciceroneou a visita de cinco governadores das regiões Sudeste e Sul à Apac de Santa Luzia. Eles estiveram ali a convite do governador de Minas, Romeu Zema, que foi apresentado a uma unidade da Apac pelo presidente Nelson Missias, em janeiro deste ano. Confira a matéria.

Além disso, em 19 de março último, o presidente Nelson Missias assinou um protocolo de intenções com o presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do STF, ministro Dias Toffoli, que visa à expansão do método Apac para outras unidades da Federação. Existem hoje, no País, 51 Apacs, espalhadas por seis estados brasileiros; 39 delas encontram-se em Minas. Confira matéria.

Aposta na ressocialização

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Nas Apacs, a pena é cumprida por meio de outra relação com o conceito de privação da liberdade

“Esta é a única prisão de que não tive vontade de sair. A Apac é um milagre.” Essa foi a mensagem que Charles Colson, fundador da Prision Fellowship International (PFI), deixou na Apac de São José dos Campos, em uma visita que fez ao espaço, há alguns anos. A PFI é uma organização não governamental que atua como órgão consultivo da ONU em assuntos penitenciários. Colson foi preso e condenado a três anos de prisão, na década de 70, por envolvimento no escândalo Watergate, que levou à renúncia do presidente Nixon.

O que o fundador da PFI viu ali foi a aplicação de uma metodologia que aposta na recuperação do ser humano que cometeu um crime. Em lugar de presídios com seus muros altos, cercas de arame farpado e presos ociosos abarrotando celas, entra em cena o Centro de Recuperação Social (CRS), espaço onde a metodologia apaquiana ganha vida. Em vez de grandes complexos e pavilhões com milhares de presos, há espaços com capacidade para abrigar em média 200 pessoas.

Nas Apacs, as pessoas privadas de liberdade são chamadas de recuperandos. Não há vigilância armada nem a presença de policiais – a lógica é que recuperandos cuidem de recuperandos. E, algo impensável nos presídios convencionais, os presos possuem a chave da própria cela. Mas a disciplina é rígida, com horários determinados para acordar e se recolher, e todos devem trabalhar, estudar e participar de cursos de capacitação.

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